por Vinicius Segalla
A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, ao tomar a decisão de se demitir do cargo, no mês passado, surpreendeu a comunidade política nacional e internacional. O que a levou a entregar o cargo, ocupado desde 2002, especula-se, foi o desgaste das sucessivas derrotas que sofreu dentro do governo, como em questões envolvendo alimentos transgênicos e políticas para a Amazônia. Ela, como milhares de executivos do mundo corporativo, cansada de uma luta inglória, teria decido jogar a toalha.
Abandonar um posto de trabalho com boa remuneração sem a perspectiva de recolocação em curto prazo não é uma atitude recomendável quando tomada de forma intempestiva, no calor do momento. Há casos, porém, em que a demissão voluntária não é necessariamente prejudicial à carreira, e pode até ajudar. Os motivos que levam ao desligamento, o que o profissional espera da carreira e do futuro próximo, e o ambiente e os procedimentos comuns na empresa que se abandona são alguns dos aspectos que determinam se o abandono do emprego pode ser bom ou ruim.
Há quem tome essa atitude para melhorar a qualidade de vida – e consegue –; há aqueles que o fazem por discordar de atitudes de chefia que os agridem e há os que resolvem assumir o risco para abrir o caminho para novas oportunidades. Mas é preciso cautela, como pontua o consultor de human capital da consultoria Mercer, Willian Bull.
“Quando o profissional se encontra em uma situação de assédio moral, ou se vê diante de um conflito ético, sua saída do emprego pode até ser vista com bons olhos pelo futuro empregador, que não gostaria de ter entre seus quadros alguém que se submete a situações vexatórias, por exemplo”, pondera o consultor.
Por outro lado, diz ele, abandonar um posto de forma emocional, levado por uma situação conflituosa momentânea não é recomendável. Pode mostrar pouco comprometimento. O ideal, completa, é fazer um movimento de carreira, mapeando uma estratégia de saída e recolocação antes de se desligar do emprego que não está agradando, completa o consultor, que considera que só após um período relativamente longo (cerca de um ano) fora do mercado e em busca de um novo emprego que o profissional começa a ter dificuldades em se reposicionar no mesmo patamar que estava antes.
O economista e professor de história da arte Carlos Rafael Longo de Souza, de 43 anos, por exemplo, deixou um alto posto em uma multinacional para transformar radicalmente seu estilo de vida. Formado na Unicamp, com mestrado em Harvard e doutorado na Universidade da Flórida, ele tinha uma carreira brilhante no Bank Boston, iniciada no Brasil, em 1992. Em 1997, assumiu, levando mulher e filha, um posto de comando nos EUA, na matriz do banco. Por lá, teve mais um filho e seguiu carreira, chegando a um salário correspondente a R$ 60 mil por mês. Então ele achou que bastava.
“Em 2001, depois dos ataques de 11 de setembro, os americanos ficaram muito nervosos. A tensão era muito grande, eu morava ao lado de um aeroporto, eu não queria criar meus filhos nesse ambiente.” Assim, ele pediu demissão. Voltou para o Brasil e passou um ano e meio só descansando, “gastando todo o dinheiro que ganhou”. Depois, arrumou emprego como professor de história, com um salário de R$ 3 mil por mês. “A mudança foi extremamente positiva”, avalia o agora professor e tradutor simultâneo. Segundo ele, o período sabático serviu para ele andar nas ruas arborizadas de Campinas pela manhã, tomar banho de piscina e ficar com os filhos à tarde, “e ir ao bar à noite, porque ninguém é de ferro”.
Seu temperamento mudou. Seus filhos perceberam que ele estava menos tenso e sério, que sorria mais e tinha tempo para brincar. Mas nem tudo são flores. “Minha mulher acabou me abandonando; ela tinha se casado com um executivo financeiro, e não um ´porra-louca´ que gosta de bar”, afirma Souza. A ex-esposa não está mais só, casou-se com outro executivo.
Hoje em dia, os ganhos de Souza são maiores do que no início da vida de professor, mas em nada comparáveis aos do tempo de executivo. “Estou muito feliz; não fazia sentido a vida que eu levava em um país como o Brasil”, afirma.
Café no processo
Já a advogada paranaense Letícia Garcia Ribeiro Dyniewicz resolveu abandonar seu trabalho porque não concordava com as posturas da chefia da banca. “Um dia, meu chefe pediu para que eu derrubasse café em um processo porque ele tinha anexado um documento errado; eu me recusei”, recorda a advogada, de 24 anos. Situações semelhantes costumavam se repetir. “Quando eu não fazia algo que considerava impróprio, ele chamava a secretária, que era muito mais jovem e com pouco conhecimento técnico, para que ela se prestasse a isso.”
A gota d´água veio após seis meses de trabalho. O chefe pediu que ela atravessasse a cidade de Curitiba em um táxi para ir a um contador, buscar um documento. Ordenou que ela pagasse o táxi e também o valor devido ao contador, e depois ele a reembolsaria, o que ela sabia que ia demorar. “Eu disse que não tinha dinheiro e ele disse para eu pedir emprestado para a secretária, mas eu falei que não pediria e que não iria mais trabalhar lá. Nunca mais voltei ao escritório”, conta.
Letícia ficou sem trabalhar por dois meses, um tanto apreensiva, mas profundamente aliviada. Após esse período, entrou para o quadro do departamento jurídico da Caixa Econômica Federal, com um salário maior do que o que recebia. “Hoje em dia sei que tomei
a melhor decisão possível.”
Caso parecido viveu a psicóloga Shaila Virgínia Bomfim Moreira, que largou uma empresa de RH, recrutamento e seleção porque a chefia impunha um regime de silêncio no escritório. “Simplesmente não podíamos conversar sobre nada que não fosse trabalho. Os chefes, que eram os donos, não conversavam com nenhum dos cerca de 10 funcionários, apenas se dirigiam a nós por e-mail”. A psicóloga resistiu ao sistema draconiano por oito meses. “Depois disso, mesmo dependendo do salário para viver, resolvi sair, porque já não agüentava mais”, desabafa. Depois de um mês de desemprego, a executiva consegui uma vaga na gerência de RH de em uma multinacional francesa. “Aqui o tratamento ao profissional é decente”.
